 | Recensão de: Se eu fosse muito magrinho, de António Mota.
Se eu fosse muito magrinho, de António Mota - e pedindo, desde já, de empréstimo a António Modesto algumas palavras a propósito de um outro título inserido na colecção «Se eu fosse…» - é um daqueles livros para os mais pequenos onde, de facto, a simplicidade não é sinónimo de vulgaridade (Modesto, 2002: 34).
Verdadeiro passaporte para a imaginação e para aceitação da diferença, este álbum, composto por António Mota e por André Letria, convida verdadeiramente a criança a ingressar num mundo onde a fantasia e / ou o improvável prevalecem, acabando, porém, por se cruzar, simultaneamente, com elementos da realidade facilmente reconhecíveis pelo leitor infantil, como a natureza ou a família.
Trata-se, na verdade, de um livro em que texto e imagem, sempre de mãos dadas (embora as ilustrações sejam visualmente mais fortes do que as palavras ), recriam um universo hiperbólico e pleno de humor . Vejam-se, por exemplo, as sequências em que o sujeito de enunciação, que, aliás, parece coincidir com uma voz infantil, afirma: «[se eu fosse muito magrinho]… Podia passear com cem amigos da minha idade sentados no banco traseiro do carro da minha mãe e ter muito cuidado a tomar banho para não entrar nos orifícios do ralo da banheira.» (Mota, 2003: s/p).
Composto com base na formulação de uma hipótese, que aqui é levada ao extremo, Se eu fosse muito magrinho surge dominado, ao nível pictórico, pela representação de uma figura longilínea, estreitíssima e marcada por uma expressão facial sempre sorridente, um ser que é, desde logo, introduzido na capa do livro.
No final, esse ser que «se fosse muito, muito magrinho» podia pedir boleia a uma velha cegonha e viajar com ela para muito longe com os [seus] óculos escuros.» ou, ainda, «cavalgar uma formiga gorda» (idem, ibidem: s/p), acaba por deixar em aberto as hipóteses que essa condição, a condição de idealizar e de fugir, de certa forma, ao mundo empírico, pode proporcionar: «descobrir o lugar misterioso onde os sonhos nunca acabam» (idem, ibidem: s/p).
E é por oferecer essa vantagem, a da infinitude da imaginação e do sonho nascidos do espaço das palavras e das imagens, que livros como Se eu fosse muito magrinho merecem, quanto a nós, ser abertos muitas vezes aos olhos dos pequenos (e dos grandes!) leitores!
Sara Silva
(docente de Literatura na Universidade do Minho)
In Rádio Terra Nova.
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